Para um apaixonado pelas palavras como eu, muitos são os autores que vão nos marcando, nos construindo, mas poucos são aqueles que quando se vão, criam vazios quase intransponíveis, Saramago faz uma falta sem tamanho no mundo em que vivemos, como eu queria suas distopias sobre o já!!! Ele sabia nos ler como poucos, ler um parágrafo de suas obras é entrar em uma pequena vida, em um grande suspiro, é se perder em seu mundo.
Como todo adolescente que cresce em uma família com rigidez e controle, rebelar-se é um ato quase natural, cada um encontra seu modus operandis, o meu foi na literatura, O Evangelho Segundo Jesus Cristo foi o primeiro de seus textos que li, em 2004, estava no segundo ano do ensino médio e estudava em um colégio cristão, uma tripla transgressão, casa, igreja e escola. Foi um empréstimo da biblioteca pública da cidade, o acervo da escola era bem conservador, mas a bibliotecária era meu farol de subversão por alí, passei muitas tardes nas almofadas destinadas à educação infantil, colocando minhas leituras em dia. Ler O Evangelho Segundo Jesus Cristo foi tão catártico, muitos dos meus questionamentos já existentes ganharam corpo e muito das minhas convicções, principalmente as políticas, foram se alicerçando, eu queria saber tudo sobre aquele escritor português audacioso, que ousou reescrever e subverter o livro mais poderoso de todos os tempos do mundo ocidental, a Bíblia, mas por ainda haver um pingo de juízo, mantinha essas leituras longe do escrutínio familiar, era uma rebelião muito particular.
Uma piscada da minha professora de literatura, uma das lembranças mais vívidas daquela época, foi o incentivo para muitas outras obras e muitos outros autores, a disciplina era minha predileta e quando fui compartilhar minhas impressões, uma mistura de felicidade e espanto passou por seus olhos, aquele momento foi um dos mais prazerosos da minha adolescência, mesmo que todos fossem contra, eu havia ganhado o aval de uma das pessoas que mais admirava e respeitava, depois descobri que ela era uma leitora voraz de Jorge Amado, outra das minhas grandes paixões.
Iniciei minha cruzada pelos mundos de Saramago aos 15 anos, um evento capaz de transformar, muitos véus foram rasgados, e por mais cruel fossem as leituras de realidade que me propiciaram, havia,e há, um prazer em não caminhar com a maioria, com o hegemônico.
Já são 10 anos sem José Saramago, e como o mundo mudou!!! Há dez anos ninguém ao meu entorno imaginava que retrocederíamos tanto, que tantos direitos seria usurpados, que tantas liberdades seriam ameaçadas, talvez ele soubesse, sim, ele saberia. Esses dias reli um de seus textos em que contestava o comando conservador do papa Bento XVI, palavras tão atuais que chegam a doer, ele conhecia a estrada que trilharíamos, suas palavras são tão proféticas que arrisco dizer que vivemos entre duas de suas obras, 2020 é um misto de As Intermitências da Morte e Ensaio Sobre a Cegueira, essas duas ficções nunca se fizeram tão reais, a pequenez da humanidade nunca foi tão evidente, as desigualdades, o egoísmo.
Desembaraçar é uma das funções fundamentais da literatura, desanuviar, e por mais pessimista que isso possa parecer, mil vezes a dor da realidade do que a paz da ignorância, Saramago era um pessimista de carteirinha, um crítico do neoliberalismo e dos individualismos que nos fizeram caminhar para o agora. Sua luta continua viva com Pilar del Rio, sua esposa, e com todos aqueles que se valem de suas palavras. Não queremos e não devemos viajar para o meio do nada em uma grande Jangada de Pedra, esse, um dos meus favoritos.
Aos que já conhecem o autor e sua obra, compartilhamos um mundo, aos que irão se iniciar, indico o último aqui citado, Jangada de Pedra, tão atual e tão necessário.
Ei, Felipe. Que felicidade ler esse texto sobre Saramago. Ainda não li tantos textos dele, mas os livros estão me vigiando ali da estante. Ler O Evangelho Segundo Jesus Cristo realmente foi uma das leitura que mudou tudo para mim.
ResponderExcluirSucesso com esse projeto.