domingo, 16 de agosto de 2020

Tóquio me levou até Bernardo Carvalho

       Sou um apaixonado por esportes, não tanto pela prática, mais pela contemplação. 2020 seria o ano das Olimpíadas de Tóquio, mas veio a Covid-19 e tivemos que dar um tempo, repensar, até o momento os jogos foram adiados para 2021, mas tudo ainda é uma incógnita. Eventos assim são sempre uma oportunidade de imersão na cultura do anfitrião da edição e confesso que no campo da literatura, o Japão nunca figurou nas minhas listas de leitura, mas em 2019 comecei a ler Haruki Murakami, gostei, fui me aventurar na trilogia 1Q84, gostei muito, tirando o final bem decepcionante, mas a trama é envolvente, um realismo mágico intrinsecamente ligado com nossa realidade factual. 

        Pensando em Tóquio, olimpíadas e literatura, uma leitura que muito me cativou se fez relembrar, "O Sol se Põe em São Paulo" de Bernardo Carvalho, autor brasileiro que muito admiro. Bernardo é um dos principais autores da atualidade, um representante legítimo da produção contemporânea da literatura brasileira, traduzido em todos os continentes, ele que já foi correspondente do jornal Folha de São Paulo, venceu o Prêmio Jabuti, o principal prêmio da literatura brasileira, em duas ocasiões, em 2004 pelo romance "Magnólia" e 2014 por "Reprodução", ambos indicadíssimos para leitura, o segundo é uma bela alegoria desse momento anti e pró-China que passa o nosso tão amado ocidente. 

Por ser um autor contemporâneo, é sempre difícil fazer uma análise teórica sendo parte de um período em que vivemos, mas podemos apontar algumas tendências bem claras em suas obras. Identidades em crise, intimismo projetado na narrativa, uma falta de limites entre o real/imaginário e  um engajamento individualista dentro da coletividade, ou seja, os dilemas do homem pós-moderno, aquele que depois dos anos 2000 vê sua identidade multifacetada.

A premissa de "O Sol se Põe em São Paulo", está em um jovem e fracassado escritor, contratado por uma dona de um restaurante Japonês, no bairro da Liberdade, na cidade de São Paulo, para que narre a história de um triângulo amoroso que se passa depois do pós-guerra no Japão, se estendendo até o Brasil nos dias de hoje, o escritor que ao longa da narrativa vai pontuando sua vida particular, se entrelaça na trama da história apresentada pela senhora japonesa, descobrindo um grande segredo que envolve até a imperial família nipônica. Um texto bem globalizado, outra tendência da escrita pós-moderna, mas muito mais presente em escritores de cidades cosmopolitas, onde o mundo é seu espaço narrativo. 

Nesse romance, Bernardo Carvalho mostra toda sua contemporaneidade ao mesclar as crises de identidade do narrador, um típico homem médio ocidental, com as contradições de uma cultura milenar, a japonesa, cruza também as linhas temporais, com o presente e o passado histórico do Japão e os processos de imigração para o Brasil, de toda uma população assolada pela miséria e pelas chagas da segunda guerra mundial. A obra não busca fazer uma homenagem à imigração, mas sim se utilizar de um processo tão característico nosso, que nos define, os imigrantes, a miscigenação e a pluralidade cultural, para traçar um paralelo entre a realidade brasileira e a realidade japonesa, onde o microcosmo do autor/narrador/personagem principal tem o potencial de interferir o macrocosmo da história, buscando esclarecer questões do passado de um terceiro, a senhora japonesa, mas também se reencontrar, se reconhecer.

     O texto é um romance muito bem construído, de uma leitura que exige atenção, mas que prende o leitor, que se vê nos entroncamentos criados pelo narrador, ativo durante todo o percurso. Dada a envergadura do autor, é um texto literário de grandiosidade, indicado para aqueles que já tem uma certa afinidade com esse contexto da literatura mais contemporânea, que tem ar de não acabada, que coloca o leitor ativamente em todo o processo. Bernardo Carvalho escreveu "O Sol se Põe em São Paulo" pensando na reação de seu leitor, nos caminhos que ele poderia percorrer, caminhos que talvez ele não percorreria.

quarta-feira, 15 de julho de 2020

10 cruéis anos sem José Saramago

Quando nasci, 1988, Saramago estava em vias de completar 66 anos, escorpiano, se preparava para lançar uma de suas grandes obras, História do Certo de Lisboa, que fui ler bem depois dos meus vinte anos. Quando ele ganha o Nobel de literatura, 1998, eu estava para completar minha primeira década e ainda nem sonhava com os mundos saramaguianos. Em 2010, quando chego a maioridade legal, com 21 anos, Saramago falece aos 87 anos.

Para um apaixonado pelas palavras como eu, muitos são os autores que vão nos marcando, nos construindo, mas poucos são aqueles que quando se vão, criam vazios quase intransponíveis, Saramago faz uma falta sem tamanho no mundo em que vivemos, como eu queria suas distopias sobre o já!!! Ele sabia nos ler como poucos, ler um parágrafo de suas obras é entrar em uma pequena vida, em um grande suspiro, é se perder em seu mundo.

Como todo adolescente que cresce em uma família com rigidez e controle, rebelar-se é um ato quase natural, cada um encontra seu modus operandis, o meu foi na literatura, O Evangelho Segundo Jesus Cristo foi o primeiro de seus textos que li, em 2004, estava no segundo ano do ensino médio e estudava em um colégio cristão, uma tripla transgressão, casa, igreja e escola. Foi um empréstimo da biblioteca pública da cidade, o acervo da escola era bem conservador, mas a bibliotecária era meu farol de subversão por alí, passei muitas tardes nas almofadas destinadas à educação infantil, colocando minhas leituras em dia. Ler O Evangelho Segundo Jesus Cristo foi tão catártico, muitos dos meus questionamentos já existentes ganharam corpo e muito das minhas convicções, principalmente as políticas, foram se alicerçando, eu queria saber tudo sobre aquele escritor português audacioso, que ousou reescrever e subverter o livro mais poderoso de todos os tempos do mundo ocidental, a Bíblia, mas por ainda haver um pingo de juízo, mantinha essas leituras longe do escrutínio familiar, era uma rebelião muito particular.

Uma piscada da minha professora de literatura, uma das lembranças mais vívidas daquela época, foi o incentivo para muitas outras obras e muitos outros autores, a disciplina era minha predileta e quando fui compartilhar minhas impressões, uma mistura de felicidade e espanto passou por seus olhos, aquele momento foi um dos mais prazerosos da minha adolescência, mesmo que todos fossem contra, eu havia ganhado o aval de uma das pessoas que mais admirava e respeitava, depois descobri que ela era uma leitora voraz de Jorge Amado, outra das minhas grandes paixões.

Iniciei minha cruzada pelos mundos de Saramago aos 15 anos, um evento capaz de transformar, muitos véus foram rasgados, e por mais cruel fossem as leituras de realidade que me propiciaram, havia,e há, um prazer em não caminhar com a maioria, com o hegemônico.

Já são 10 anos sem José Saramago, e como o mundo mudou!!! Há dez anos ninguém ao meu entorno imaginava que retrocederíamos tanto, que tantos direitos seria usurpados, que tantas liberdades seriam ameaçadas, talvez ele soubesse, sim, ele saberia. Esses dias reli um de seus textos em que contestava o comando conservador do papa Bento XVI, palavras tão atuais que chegam a doer, ele conhecia a estrada que trilharíamos, suas palavras são tão proféticas que arrisco dizer que vivemos entre duas de suas obras, 2020 é um misto de As Intermitências da Morte e Ensaio Sobre a Cegueira, essas duas ficções nunca se fizeram tão reais, a pequenez da humanidade nunca foi tão evidente, as desigualdades, o egoísmo.

Desembaraçar é uma das funções fundamentais da literatura, desanuviar, e por mais pessimista que isso possa parecer, mil vezes a dor da realidade do que a paz da ignorância, Saramago era um pessimista de carteirinha, um crítico do neoliberalismo e dos individualismos que nos fizeram caminhar para o agora. Sua luta continua viva com Pilar del Rio, sua esposa, e com todos aqueles que se valem de suas palavras. Não queremos e não devemos viajar para o meio do nada em uma grande Jangada de Pedra, esse, um dos meus favoritos.

Aos que já conhecem o autor e sua obra, compartilhamos um mundo, aos que irão se iniciar, indico o último aqui citado, Jangada de Pedra, tão atual e tão necessário.

domingo, 14 de junho de 2020

Carta do redescobrimento. Precisamos comunicar e precisamos da literatura.

Ifemelu, personagem central do romance "Americanah", da escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, é aquele tipo de personagem que marca a vida do leitor, a obra em si, é um espetáculo literário, um retrato tão cru sobre as questões de raça nos EUA, aliás, para esse momento de profusão global contra o racismo, onde não conseguir respirar é o resultado letal das políticas de alienação neoliberal, "Americanah" é uma grande indicação.

A questão acima é extremamente importante, mas hoje, para esse pequeno texto de apresentação, quero falar sobre um aspecto de Ifemelu que me instigou a retornar ao mundo dos blogs. A personagem de Chimamanda cria um blog para descrever suas impressões sobre raça nos EUA, um projeto que se torna extremamente exitoso e me fez relembrar das épocas que passava horas desbravando blogs sobre cinema, literatura, política e sociedade, mais ainda, da época que escrevia. Hoje, troquei o desbravamento de blogs pelos podcasts, mas a junção de Covid-19, isolamento social, indignação e necessidade de comunicar, me fizeram retornar por essas bandas. Estava há algum tempo sentindo a necessidade de escrever, de através do texto, refletir e promover reflexão.

Como um desabafo ou forma de questionamento, uso esse espaço para escrever e refletir sobre algo extremamente caro à minha existência, a literatura, as relações entre leitores e escritorxs, os cânones e o direito ao livro, a literatura como direito fundamental.

Por sermos um construto de nossas experiências e nossos entornos e contornos sociais, a literatura em língua portuguesa, em especial a literatura brasileira, sempre me foi incentivada, desde os clássicos da icônica coleção Vaga-Lume, até a iniciação nas obras de Machado de Assis, Jorge Amado, Graciliano Ramos, Clarice Lispector e José Saramago, assim fui construindo minha biblioteca de mundos, histórias, conhecimentos e divagações.

Um Oceano de Jabutis é uma homenagem aos livros que transformaram minha vida como leitor e como cidadão, mas por que esse nome? Se você for uma pessoa aficionada por listas e premiações, já deve ter compreendido as referências do título do blog, para você que não é, não se preocupe, esse é o objetivo desse primeiro texto. A língua portuguesa, tão linda, tão sonora, tão gostosa, dona de grandes clássicos da literatura mundial como "Dom Casmurro", "Terra Sonâmbula", "Ensaio Sobre a Cegueira", "Gabriela, Cravo e Canela", "A Hora da Estrela" etc, possui dois grandes prêmios literários, o Jabuti no Brasil e o Oceanos em Portugal, esse, premia escritorxs do mundo lusófono, aquele, escritorxs brasileiros, ambos alimentam minhas listas de desejos literários, de compras e de buscas em livrarias.

Nos últimos anos, ambos os prêmios apresentam além do vencedor, os finalistas, aumentando ainda mais as listas de leitura, mas sempre com aquela convicção de que a produção literária contemporânea em língua portuguesa é extremamente profusa e universal, sou aquela pessoa que não perde a oportunidade de pregar o evangelho da literatura brasileira, quando me pedem um indicação de livro, já solto um autor nacional, tento fazer aquele convencimento, se não dá certo, vou para um do mundo lusófono, se não consigo, expando as indicações para autorxs de língua espanhola, francesa e italiana, os de língua inglesa são sempre a última opção, não há desmerecimento aqui, apenas prefiro não reforçar sentimentos hegemônicos, eles não são saudáveis em um mundo tão diverso.

Um Oceano de Jabutis é uma homenagem à nossa literatura, aos nossos escritorxs e nossa produção literária, sempre reconhecida lá fora, mas renegada por aqui, nossas listas dos dos mais vendidos são uma pequena vergonha, mais para frente conversaremos sobre, mas por não termos uma cultura de valorização do texto literário, vemos um consumo exacerbado sobre empreendedorismo, o brasileiro médio anseia enriquecer aos custos do empobrecimento de sua alma, de sua cultura.

Temos a nossa disposição um oceano de escritorxs maravilhosos, de textos marcantes e mundos absurdamente profundos, produção nossa, produção lusófona tão diversa, presente nas Américas, na Europa, na África, na Ásia e na Oceania, afinal somos a sexta língua mais falada do mundo, uma deliciosa caldeirada cultural.


Tóquio me levou até Bernardo Carvalho

        Sou um apaixonado por esportes, não tanto pela prática, mais pela contemplação. 2020 seria o ano das Olimpíadas de Tóquio, mas veio ...