domingo, 14 de junho de 2020

Carta do redescobrimento. Precisamos comunicar e precisamos da literatura.

Ifemelu, personagem central do romance "Americanah", da escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, é aquele tipo de personagem que marca a vida do leitor, a obra em si, é um espetáculo literário, um retrato tão cru sobre as questões de raça nos EUA, aliás, para esse momento de profusão global contra o racismo, onde não conseguir respirar é o resultado letal das políticas de alienação neoliberal, "Americanah" é uma grande indicação.

A questão acima é extremamente importante, mas hoje, para esse pequeno texto de apresentação, quero falar sobre um aspecto de Ifemelu que me instigou a retornar ao mundo dos blogs. A personagem de Chimamanda cria um blog para descrever suas impressões sobre raça nos EUA, um projeto que se torna extremamente exitoso e me fez relembrar das épocas que passava horas desbravando blogs sobre cinema, literatura, política e sociedade, mais ainda, da época que escrevia. Hoje, troquei o desbravamento de blogs pelos podcasts, mas a junção de Covid-19, isolamento social, indignação e necessidade de comunicar, me fizeram retornar por essas bandas. Estava há algum tempo sentindo a necessidade de escrever, de através do texto, refletir e promover reflexão.

Como um desabafo ou forma de questionamento, uso esse espaço para escrever e refletir sobre algo extremamente caro à minha existência, a literatura, as relações entre leitores e escritorxs, os cânones e o direito ao livro, a literatura como direito fundamental.

Por sermos um construto de nossas experiências e nossos entornos e contornos sociais, a literatura em língua portuguesa, em especial a literatura brasileira, sempre me foi incentivada, desde os clássicos da icônica coleção Vaga-Lume, até a iniciação nas obras de Machado de Assis, Jorge Amado, Graciliano Ramos, Clarice Lispector e José Saramago, assim fui construindo minha biblioteca de mundos, histórias, conhecimentos e divagações.

Um Oceano de Jabutis é uma homenagem aos livros que transformaram minha vida como leitor e como cidadão, mas por que esse nome? Se você for uma pessoa aficionada por listas e premiações, já deve ter compreendido as referências do título do blog, para você que não é, não se preocupe, esse é o objetivo desse primeiro texto. A língua portuguesa, tão linda, tão sonora, tão gostosa, dona de grandes clássicos da literatura mundial como "Dom Casmurro", "Terra Sonâmbula", "Ensaio Sobre a Cegueira", "Gabriela, Cravo e Canela", "A Hora da Estrela" etc, possui dois grandes prêmios literários, o Jabuti no Brasil e o Oceanos em Portugal, esse, premia escritorxs do mundo lusófono, aquele, escritorxs brasileiros, ambos alimentam minhas listas de desejos literários, de compras e de buscas em livrarias.

Nos últimos anos, ambos os prêmios apresentam além do vencedor, os finalistas, aumentando ainda mais as listas de leitura, mas sempre com aquela convicção de que a produção literária contemporânea em língua portuguesa é extremamente profusa e universal, sou aquela pessoa que não perde a oportunidade de pregar o evangelho da literatura brasileira, quando me pedem um indicação de livro, já solto um autor nacional, tento fazer aquele convencimento, se não dá certo, vou para um do mundo lusófono, se não consigo, expando as indicações para autorxs de língua espanhola, francesa e italiana, os de língua inglesa são sempre a última opção, não há desmerecimento aqui, apenas prefiro não reforçar sentimentos hegemônicos, eles não são saudáveis em um mundo tão diverso.

Um Oceano de Jabutis é uma homenagem à nossa literatura, aos nossos escritorxs e nossa produção literária, sempre reconhecida lá fora, mas renegada por aqui, nossas listas dos dos mais vendidos são uma pequena vergonha, mais para frente conversaremos sobre, mas por não termos uma cultura de valorização do texto literário, vemos um consumo exacerbado sobre empreendedorismo, o brasileiro médio anseia enriquecer aos custos do empobrecimento de sua alma, de sua cultura.

Temos a nossa disposição um oceano de escritorxs maravilhosos, de textos marcantes e mundos absurdamente profundos, produção nossa, produção lusófona tão diversa, presente nas Américas, na Europa, na África, na Ásia e na Oceania, afinal somos a sexta língua mais falada do mundo, uma deliciosa caldeirada cultural.


Um comentário:

  1. Ahhhh, muito feliz em poder ler mais sobre suas experiências literárias. Preencha esse lugar com tudo que você pode nos ensinar e compartilhar de suas leituras.
    Abraços

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